Enquete

Você se sente ou já se sentiu assediado moralmente no banco?

Liberdade de imprensa e publicidade enganosa

Waldemar Rossi

"Um dia depois de ter despejado de forma violenta 800 famílias em
Capão Redondo, o governo de São Paulo (leia-se governo Serra) tem a
cara de pau de publicar um anúncio de uma página nos jornais
divulgando a sua



'política de habitação popular' " (nota publicada no CMI - Centro de
Mídia Independente).



Pela internet é possível ainda ter acesso a algumas informações que a
mídia brasileira nega aos seus leitores ou freqüentadores
audiovisuais. É o caso da nota acima, que não foi divulgada pela
imprensa. A nota virtual veio acompanhada de fotos de mais uma
propaganda enganosa do governo de São Paulo (de José Serra).
Acompanhando o título publicitário "Habitação popular no Estado de São
Paulo é assim: A gente faz. E faz bem feito", vêm quatro fotos
arrumadinhas de algumas pessoas que mostram sua "satisfação" em
receber moradia popular. A foto de cada pessoa ou família vem junto a
um subtítulo: "Acredite; Sonhe; Respire; e Comemore".



A nota da internet, por sua vez, traz, acompanhando os mesmos
subtítulos, outras quatro fotos revelando a forma violenta com que a
polícia estadual - de responsabilidade exclusiva do governador José
Serra - promoveu o despejo de 800 famílias de Capão Redondo, entre
tantos outros despejos criminosos, despejos determinados pela
"justiça" estadual. Nessas fotos que contrastam com a publicidade
oficial aparecem: crianças desalojadas na rua (Acreditem); morador
tentando salvar alguma coisa de seu barraco (Sonhe); fumaça das bombas
de gás exalando no meio dos barracos (Respire); povo aglomerado
desalojado do seu abrigo (Comemore).



Além dessas propagandas enganosas, cheias de meias-verdades, os
governantes têm ao seu dispor toda a cobertura da imprensa, com
comentários dos mais elogiosos sobre suas "obras populares". Enquanto
para o povo restam comentários desairosos, tentando passar para a
opinião pública que se trata de criminosos, de "invasores", negando as
informações mais importantes de que são pessoas e famílias inteiras
injustiçadas por esta sociedade discriminatória. Injustiçadas pelas
políticas públicas que satisfazem aos interesses do capital, pela
concentração de rendas, pela sonegação dos seus direitos elementares,
pela sonegação de impostos, comandada por uma elite econômica
hipócrita e maquiavélica (no seu mau sentido).



A liberdade de imprensa é uma das grandes farsas que imperam no
sistema burguês gerador e administrador desse capitalismo selvagem,
que cria desigualdades brutais, miséria e a barbárie.



A Imprensa, segundo as leis internacionais, é sempre uma concessão do
Estado e deveria ser UNIVERSAL, isto é, concedida e aberta a todos os
cidadãos. Mas está toda ela reservada para o mesmo capital. Seus
"proprietários" são participantes do mesmo capital, e por isto se
torna elitista e sonega o direito à verdadeira expressão da vontade e
das legítimas reivindicações populares. Uma mídia que seleciona suas
notícias, sempre voltadas para defender os interesses dos
exploradores, mas que impede a veiculação de informações importantes
de interesse do povo, sobretudo as geradas pela reação do movimento
social que contesta os desmandos que são praticados neste país.



A prática da liberdade de imprensa no Brasil se compara ao exercício
da política oficial, cujos políticos eleitos pelo povo, tendo suas
campanhas eleitorais financiadas pelos detentores das terras, dos
bancos, das indústrias e do comércio, se julgam donos do país, isentos
de julgamentos dos seus crimes e com direito a praticar toda sorte de
bandalheira. Mas que não têm competência para governar segundo os
interesses de toda a nação.



Assim é a prática da mídia no Brasil: tendo obtido a concessão se
julga possuidora de todos os direitos, incluído o "direito" de
desinformar e de corromper ideologicamente a opinião pública. De tal
forma que, cada vez mais, se torna necessário um amplo trabalho de
informações desenvolvido pelas forças populares organizadas, capaz de,
com o tempo, despertar a consciência crítica do povo, animando-o a
assumir as rédeas da condução do nosso país, determinando o que pode e
o que não pode ser praticado pelos políticos e pelos meios de
comunicação social. E, acima de tudo, se for o caso, cassar mandatos e
concessões. Sem isto não haverá democracia para o povo.



Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral
Operária da Arquidiocese de São Paulo

Voltar