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A mídia esconde sua partidarização

Laurindo Leal

A mídia esconde sua posição política, diz especialista

Ana Cláudia Barros, no Terra Magazine

Considerada mito sob os olhares mais críticos, a imparcialidade nos
meios de comunicação sempre foi objeto de discussões infindáveis,
sobretudo, do lado de dentro dos muros acadêmicos. Em tempos de
corrida eleitoral, a questão, polêmica por excelência, volta a
monopolizar os debates, na maioria das vezes, inflamados pelas paixões
partidárias. Estaria a grande imprensa se portando de maneira
equilibrada em relação aos candidatos, principalmente, no que diz
respeito aos postulantes à cobiçada vaga de "comandante-mor" da nação?
Na análise do sociólogo e jornalista Laurindo Leal Filho, professor da
Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a
resposta é não.

"A diferença entre quase todos os meios de comunicação do Brasil e os
do exterior é que, no exterior, eles assumem, publicamente, o
candidato ou o partido que estão apoiando", afirma. Categórico, ele
diz que a mídia brasileira esconde sua posição política."É
praticamente impossível a isenção total", dispara.

Leal defende que a mesma postura adotada por outros países seja
incorporada pelos veículos impressos daqui, para evitar que gatos e
lebres sejam colocados em um balaio comum. "É o caminho mais honesto.
Do contrário, você acaba enganando o leitor com a suposta
imparcialidade que, na verdade, não existe."

Terra Magazine - Como o senhor avalia a atual cobertura eleitoral
feita pela mídia? Na sua opinião, os candidatos são retratados com
equilíbrio?
Laurindo Leal Filho - Não. A mídia, de uma maneira geral, não só no
Brasil, mas em todos os países mais desenvolvidos, sempre assume uma
posição, principalmente, nos pleitos majoritários, como é o caso de
uma eleição para presidente da República. É praticamente impossível a
isenção total. Os meios de comunicação, na maioria dos países, não têm
nenhuma preocupação com isso. A diferença entre quase todos os meios
de comunicação do Brasil e os do exterior é que, no exterior, eles
assumem, publicamente, o candidato ou o partido que estão apoiando.
Isso não quer dizer que vão fazer uma cobertura distorcida do pleito.
Eles não escondem que têm preferência por esse ou aquele candidato.
Isso, na França, na Inglaterra, é muito comum. Os jornais acompanham
uma determinada tendência política, e o leitor sabe disso.

Estabelece-se uma relação mais franca com o leitor.
Infelizmente, no Brasil, alguns jornais ou a maioria deles anuncia que
é independente, equidistante dos candidatos, mas, na verdade, acabam
exercendo isso, que é muito ruim. Acabam escondendo do leitor a sua
posição política. Acho que duas honrosas exceções no Brasil, na mídia
impressa, são o Jornal O Estado de S.Paulo - que, nas duas últimas
eleições, tem apoiado os candidatos do PSDB explicitamente - e a
revista Carta Capital, que tem apoiado os candidatos do PT.

O senhor acredita que esse deveria ser o caminho adotado pela mídia
impressa de maneira geral?
É o caminho mais honesto. Do contrário, você acaba enganando o leitor
com a suposta imparcialidade que, na verdade, não existe. Basta ver o
que os jornais já estão fazendo hoje nesta eleição, com posições
claramente a favor do candidato da oposição. Os três grandes jornais
brasileiros, Globo, Folha (de São Paulo) e Estado (de São Paulo) estão
nitidamente se colocando a favor do candidato da oposição. E as
revistas semanais, com exceção da Carta Capital, também.
Especialmente, a Veja. Claramente, estão fazendo uma cobertura da cena
política brasileira muito favorável à oposição.

Para o senhor, isso torna a disputa desleal?
Contribui. No Brasil, é pior ainda, porque os jornais impressos têm
uma abrangência de cobertura relativamente pequena em relação à
população, mas eles acabam pautando o rádio e a televisão. Estes, sim,
atingem, praticamente, toda a população brasileira. Acompanham essa
tendência não só por serem pautados nas suas linhas editoriais, nas
suas coberturas, pelos grandes jornais, mas por também assumirem as
candidaturas da oposição. Estou falando das grandes redes, o que é
pior, porque se trata de uma ação ilegal. A televisão e o rádio são
concessões públicas, diferente da mídia impressa, que são empresas
particulares. São concessões públicas que estão usando o espaço
público para interesses privados, que são os interesses políticos em
relação a determinados candidatos. Então, eu acho que, para responder
claramente, há uma distorção do processo eleitoral brasileiro no que
diz respeito à cobertura da imprensa. Jornais impressos e revistas
deveriam claramente divulgar para o leitor qual é a sua posição, e o
rádio e a televisão deveriam se abster de fazer esse tipo de opção.
Deveriam buscar o máximo possível a insenção, coisa que não fazem.

Na sua opinião, a imprensa tem o poder de eleger um candidato?
Não tem poder absoluto, porque se defronta com outras variáveis, mas
contribui. Em outros momentos, a imprensa já teve mais força. Hoje, no
caso específico das últimas eleições, está provado que a ação política
do governo tem superado o jogo eleitoral da imprensa, mas não de uma
forma absoluta.

Quais seriam essas variáveis?
Por exemplo, ações do governo que atingem diretamente o cidadão e
melhoram sua condição de vida.

O Bolsa Família (programa de transferência de renda do Governo
Federal), por exemplo?
Bolsa Família, projetos urbanos de habitação, de transporte. O Bolsa
Família talvez seja o principal. Eles atingem de forma tão direta o
cidadão que, por mais que a imprensa tome posição contrária, não
consegue mudar a tendência de voto. Agora, não que isso seja absoluto.
Nas eleições de 2006, a ação da imprensa foi decisiva para levar o
candidato Geraldo Alckmin para o segundo turno. No final do primeiro
turno, quando se previa uma vitória de Lula, a ação concentrada dos
meios de comunicação a favor do candidato Geraldo Alckmin mudou o
panorama. Não determinou a vitória dele, mas o levou ao segundo turno.
A história do dossiê, que supostamente o PT teria comprado, colocada
nas primeiras páginas dos jornais. Mas não foi só. Foi colocada no
Jornal Nacional. Em outros momentos mais antigos, como no famoso
debate Lula x Collor, foi decisiva a ação da televisão, editando o
debate na véspera da eleição, mostrando que um dos candidatos tinha
melhores condições e qualidade do que o outro. A ordem da Globo foi
editar o debate com todos os momentos ruins de Lula e os minutos bons
do Collor. Aquilo foi decisivo. Acho que a imprensa não define 100% um
pleito, mas ela influi bastante.

O senhor acha que o eleitor brasileiro está preparado para fazer uma
leitura crítica disso tudo?
Infelizmente, não. Temos no Brasil um processo de concentração da
mídia que impede ao leitor, ao telespectador, ao ouvinte estabelecer
comparações, alternativas. Temos uma mídia praticamente homogênea.
Então, isso dificulta muito o que chamamos de leitura crítica da
comunicação. Há a possibilidade de estabelecer essa crítica de que
você está falando ou nos bancos escolares, o que não existe, ou então
através de um outro leque de opções de meios de comunicação, que deem
a possibilidade de você perceber que um trata a política de um jeito e
outro, de outro jeito. Aí, você pode fazer escolha crítica. No Brasil,
não existe isso. Há uma situação quase que homogênea dos veículos,
então, o telespectador, o leitor, o ouvinte têm dificuldade para fazer
a crítica.

Isso, de certa forma, não compromete o processo democrático?
Sem dúvida. Tenho convicção de que, enquanto não tivermos uma
redefinição do quadro de comunicação no Brasil, uma legislação, por
exemplo, no caso do rádio e da TV, que estabeleça critérios mais
rígidos, não para censurar, mas para aumentar a diversidade. No caso
dos meios impressos, que se tenha mais atores nesse processo, jornais
de outras tendências, enquanto não tivermos isso, nós não teremos
completado o processo democrático. A democracia continuará meio
capenga.

Para o senhor, a internet pode ser um instrumento nesse processo, uma
vez que ela abre espaço para o debate?
Ela já é uma alternativa. Só que é muito restrita no Brasil. Às vezes,
as pessoas acham, porque é na classe média onde os formadores de
opinião circulam, que toda a população está sendo beneficiada pela
internet. A internet só atinge, hoje, 18% da população brasileira. É
uma parcela muito pequena. Ainda vai demorar um bom tempo para a
democratização dela, 18% é o acesso domiciliar à internet, e não são
100% que têm acesso à banda larga. Acho que, no Brasil, a internet é
um instrumento de democratização, mas ainda limitado a uma parcela
pequena da sociedade.

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