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O Brasil num patamar bem mais alto em Ciência

José Monserrat

O Brasil fechou 2010 com duas decisões históricas: firmou acordo de adesão à ESO (Organização Europeia de Pesquisa Astronômica no Hemisfério Austral) e candidatou-se a membro associado do Cern (Organização Européia de Pesquisas Nucleares). A entrada na ESO implica o investimento de 250 milhões de euros (R$ 700 milhões) em dez anos. A filiação ao Cern envolve a contribuição anual da ordem de US$ 15 milhões (R$ 25 milhões).

Por José Monserrat Filho, no Jornal da Ciência

Em compensação, nos dois casos, o Brasil terá inestimáveis benefícios para os astrônomos, físicos e outros cientistas brasileiros, bem como para diferentes empresas do país, desde as de terraplanagem e grandes construções até os de mais alta tecnologia. Calcula-se que até 75% dos investimentos brasileiros na ESO poderão retornar ao país em forma de contratos com empresas nacionais.

Herdadas pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, de seu antecessor, Sergio Rezende, estas iniciativas elevam a C&T brasileira a um patamar inusitado, em estreita relação e convivência com as maiores potências científicas do mundo atual, em áreas de conhecimento e aplicações industriais altamente sofisticadas. A ideia estratégica é aproveitar a boa etapa por que passa o Brasil e não perder o bonde da história.

Se o acordo de adesão for ratificado pelo Congresso Nacional, o Brasil será o primeiro país do Hemisfério Sul a filiar-se à ESO e seu 15º país membro, ao lado de Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Suécia e Suíça. Seremos co-proprietários de todos os bens e instalações da ESO, que usaremos em pé de igualdade com os demais países membros, gozando dos mesmos direitos e regalias.

A ESO já conta com três conjuntos de observatórios no norte do Chile, o melhor lugar da Terra para se observar o Universo, e vai construir um quarto, ainda mais poderoso:

1) No Cerro La Silla, a 2.400m de altitude, tem vários telescópios ópticos com espelhos de até 3.6m de diâmetro, entre eles o New Technology Telescope, de 3.5m de diâmetro, o primeiro do mundo com espelho principal controlado por computador, e o telescópio de 3.6m, dotado de espectrógrafo com precisão sem precedentes, o High Accuracy Radial velocity Planet Searcher (HARPS), principal responsável pela descoberta de planetas extra solares do mundo;

2) No Cerro Paranal, a 2.600m de altura, tem o Very Large Telescope (VLT), conjunto de quatro telescópios, cada qual com um espelho principal de 8.2m. O VLT é tão poderoso que permite ver objetos quatro milhares de milhões de vezes menos brilhantes que os observados a olho nu.

3) No Planalto de Chajnantor, o mais alto do mundo, a 5.000m de altura, tem o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), que começa a operar neste ano, com rede de 66 antenas gigantes, de 12 e 7m, capaz de observar regiões do espectro do milímetro e sub milímetro. Tem ainda o telescópio APEX, de 12m, que trabalha no milímetro e sub milímetro, a serviço do Observatório Onsala do Instituto Max Planck de Radio Astronomia, Alemanha, e da própria ESO.

4) No Cerro Amazones, vai construir em dez anos o E-ELT, "o maior olho no céu", telescópio óptico/infravermelho com espelho de 42m, que, segundo os estudiosos, "provavelmente revolucionará a nossa percepção do Universo tal como a luneta de Galileu o fez há 400 anos".

É um patrimônio e tanto, que nossos astrônomos já podem usar, embora o acordo de adesão só entre em vigor após a ratificação pelo Congresso Nacional, esperada para este ano. Eles também já podem integrar como observadores o Conselho e os Comitês Técnico-Científico, Financeiro e de Usuários da ESO.

As empresas brasileiras são igualmente, favorecidas desde agora. Já podem participar das concorrências e licitações da ESO, que tem orçamento anual de 130 milhões de euros (R$ 340 milhões) e está sempre realizando uma infinidade de obras, muitas de grande porte.

O Cern, por sua vez, é um dos maiores e mais conceituados centros científicos do mundo. É o mundo da física de altas energias. Uma babilônia avançada por onde circulam anualmente mais de cinco mil cientistas, professores e estudantes de primeira linha.

Como membro associado do Cern, o Brasil não será dono de bens, como no caso da ESO, mas poderá usufruir de todos os seus laboratórios e instalações super modernos, inclusive o maior acelerador de partículas do mundo, o LHC (Large Hadron Collider). Já fazemos isso, mas em pequena escala. Na nova situação, os 80 brasileiros de hoje poderão se multiplicar várias vezes, com direito a ganhar bolsas de pesquisa e a assumir postos na instituição.

A indústria brasileira também se beneficiará em nível nada desprezível. Poderá ter empresas fornecedoras e outras concorrendo a valiosos contratos. É bom lembrar que o Cern tem orçamento anual de cerca de 660 milhões de euros (R$ 1,7 bilhão ou US$ 1 bilhão de dólares).

O sempre bem humorado Ronaldo Shellard, vice-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Física, um dos batalhadores pela associação do Brasil ao Cern reconheceu, em entrevista à "Folha de S. Paulo", que iniciativas como esta custam caro, sim. Mas, argumentou, irônico: "Nenhum país ficou pobre até hoje ficou pobre por investir em ciência". Ainda mais na grande ciência do século 21.

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